Seguindo com a série Gastronomia Profissão, que visa mostrar aos leitores diversas opções de trabalho na Gastronomia, hoje estou postando uma entrevista com Leonard Signer e Cruz, que foi meu colega de turma no curso de Gastronomia da Universidade Estácio de Sá e trabalhou nove meses em navios de cruzeiro.
Leonard conta para gente como foi sua experiência como segundo cozinheiro em navios da empresa MSC Cruzeiros, navegando pela Europa, Israel e Turquia e também pela costa brasileira. Estão pensando que foi só diversão?! Então leiam abaixo.
1. Como conseguiu o trabalho no navio e quais foram as exigências para conseguir o emprego? Houve alguma burocracia? Fiz a inscrição em uma agência de recrutamento. Foi pedido carteira de trabalho e diploma para comprovar meu cargo, o curso de sobrevivência no mar (que fiz depois de me inscrever) e fluência no inglês. Eles pedem uma série de exames de saúde. Tive que tirar um passaporte panamenho, mas isso foi feito dentro do navio, pela própria companhia.
2. Quanto de dinheiro teve que investir?
Gastei com os exames exigidos para entrar na companhia e uma taxa de R$ 400,00 para a agência no momento do embarque. Eles pediram também um depósito de US$ 600 para a passagem aérea em caso de desistência ou quebra de contrato. Esse dinheiro foi devolvido em US$ quando retornei.
3. Qual idioma falava no navio? Deu para se virar bem?
A língua oficial do navio era o inglês, mas por ter muitos italianos à bordo, o italiano também era falado. Eu me virei com o inglês.
4. Como foi seu primeiro dia? Teve que levar material ou uniforme?
A recepção não foi das mais calorosas, um eslavo andou com os novatos pelo navio, para mostrar as instalações. No primeiro dia tive que comprar uniforme que foi deduzido do primeiro salário a receber. O material de cozinha estava disponível para uso comum.
5. Como era sua jornada de trabalho?
Comecei no turno do dia: começando às 7:00 da manhã, parando às 15:00, voltando às 18:00 e encerrando pela meia noite. Depois passei para o horário noturno: trabalhando das 22:00 até às 7:00 da manhã na produção, e voltava de tarde das 14h às 18h para montagem de pratos. Eu gostei mais de trabalhar no turno da noite, pelo único motivo de não ter chefes gritando o tempo inteiro. Não existem folgas, foram nove meses trabalhando todos os dias!
6. Como era seu alojamento/cabine?
As cabines são para 2, 3 ou 4 tripulantes, dependendo do cargo. A turma da limpeza, geralmente fica em cabines para 3 ou 4 e os cozinheiros em cabines duplas. Eu dividi a cabine com um indiano. As cabines são pequenas devendo ter uns 3 x 4 m, com cama, TV, banheiro e um armário por tripulante. Nem todas as cabines tinham TV.
7. O que fazia quando o navio estava no porto? Conseguiu passear, conhecer as cidades por onde passou, fazer compras?
Como dito anteriormente, não havia folgas. Eu podia descer nos portos desde que não estivesse em horário de trabalho. Quando passei para o turno noturno, havia tempo para sair e conhecer as cidades, mas o cansaço era tanto que foram poucas saídas. Ou você sai ou dorme. Em todos os portos os tripulantes têm direito de comprar no free shop, ficando livre dos impostos.
8. Qual tipo de comida era servida no restaurante? Como era essa comida e em quais estações trabalhou?
Cozinha internacional, puxada para italiana, sempre constavam no menu pastas e risotos. Eu trabalhei os noves meses de contrato no garde manger, preparando somente entradas, que na sua grande maioria eram pratos ruins, combinações estranhas, peixes mal marinados... Era uma produção em massa, poucos pratos eram realmente saborosos.
9. Fez alguma besteira na cozinha? Algum desastre? Algum mico?
Creio que não. Algumas vezes discuti com meu chefe e foi um bafafá na cozinha! Mas nada anormal num ambiente de cozinha de produção para 3000 passageiros.
10. Quem era o chef de cozinha e como foi sua relação com ele? Como é a hierarquia no navio, igual a outras cozinhas?
Minha relação com meu chefe foi boa, algumas discussões por produção desnecessária e desperdício, mas depois aprendi que essa era a política do navio. Hierarquia de uma cozinha normal: chefe executivo, sous chef, e chefes de partida; 1°, 2° cozinheiros e ajudantes.
11. Como eram os colegas de trabalho? De quais nacionalidades?
A maioria era de Indonésios, Indianos e Filipinos, mas havia uns poucos Brasileiros Italianos e Birmânios.
12. Sofreu alguma discriminação por ser estrangeiro/brasileiro?
A única discriminação era o salário. Enquanto eu ganhava US$ 1.000 como 2° cozinheiro, um europeu no mesmo cargo ganhava 3.000 euros.
13. Qual foi seu maior aprendizado nesse trabalho?
Acho que o maior aprendizado foi resistir nove meses, trabalhando todos os dias, numa escala de mais de 12 horas diárias. Sem ficar doente e sem faltar no trabalho.
14. O que achou das condições de trabalho em um navio? O salário vale à pena? Como era feito o pagamento?
O pagamento era feito mensalmente em dinheiro e o salário acaba compensando porque não há gastos. Todos têm direito à comida, cama e roupa lavada. Como não sobra tempo para muita coisa, acaba-se gastando muito pouco. As condições são boas, mas é muito cansativo! Toda a brigada de restaurante (garçons, cozinheiros e limpeza) está sempre com cara de acabado.
15. Algum conselho para quem quiser trabalhar na cozinha de um navio?
Muita coragem e muita disposição! Quem acha que é mole, melhor nem se candidatar para não perder tempo.
16. E no Brasil, como foi sua volta? Pretende trabalhar em cruzeiros novamente?
Fiquei parado um mês quando voltei, mas por opção, pois precisava descansar! Depois procurei emprego por mais um mês, indo trabalhar num bistrô na Lapa, no Rio de Janeiro. Me ligaram algumas vezes da companhia para embarcar novamente, agora como 1° cozinheiro, mas recusei. Acredito que as portas para trabalhar em qualquer companhia de cruzeiros estão abertas, mas é muito cansativo. Quando mudarem a política de salários (brasileiro = europeu) voltarei para mais uns contratos.
O Aromas e Sabores agradece ao Leo pela entrevista e deseja a ele muito sucesso!!
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